Em outubro de 2009, Geisy Arruda foi hostilizada por alunos de uma universidade particular de São Paulo por usar um vestido rosa choque considerado curto demais. O vestido, em tese, fugia das normas de comportamento da universidade e, por causa dele, a aluna teve sua integridade física colocada em risco, tendo sido acionada a Policia Militar para proteger a jovem. Naquela época, o caso ganhou grande repercussão, inclusive na internet, e muito se discutiu sobre a liberdade do corpo feminino.

Naquele ano eu me graduava em Direito e já sabia que atuaria na proteção de direitos de grupos vulneráveis, o que inclui o direito das mulheres.

Os anos se passaram e, além de atuar no ramo jurídico, descobri uma nova paixão na minha vida, que é o pole dance. Para além de um hobby, eu vi no pole uma atividade empoderadora, que “conversa” com a minha profissão de formação pois coloca em prática o que a legislação basileira atual apregoa com relação ao direito de igualdade entre homens e mulheres e direito à liberdade e ao respeito ao corpo feminino.Não é por outro motivo que o Estúdio Sou do Pole lançou um projeto social de aulas gratuitas de pole dance, que você pode conferir aqui

Inegavelmente, o pole dance é uma ferramenta de transformação social, apta a mudar a vida de muitas mulheres que sofrem em demasiado com os preconceitos vivenciados diuturnamente na nossa sociedade machista. Aliás, nos tempos atuais, o machismo vem ganhando força inclusive diante do discurso governamental ultraconservador, que se alinha com visões de mundo de países autoritários do Oriente Médio, absolutamente contrárias aos direitos das mulheres.

Como todo projeto de empoderamento, o pole é vitrine para críticas daqueles que pregam valores conservadores.

Hoje, em 2019, dez anos depois do ocorrido com Geisy Arruda, me deparo com um episódio de preconceito em massa contra pole dancers: o instagram, uma das maiores redes sociais da atualidade, bloqueou hashtags utilizadas especificamente por praticantes de pole, em especial do sexo feminino, por considerar que elas não estariam “em conformidade com as diretrizes da comunidade do instagram“. A medida evidentemente visa a dificultar a visualização e divulgação de material postado por praticantes de pole, equiparando-o, portanto, a um material impróprio.

O instagram, ao agir assim, ocultando e bloqueando conteúdo produzido por pole dancers, reverbera o inconsciente coletivo de que é certo cercear, que mulheres têm que se comportar, que seus corpos devem ser dóceis, recatados e submissos, que é preciso “se dar ao valor” e tudo mais que estamos acostumadas a ouvir todos os dias. Essas falas  são multiplicadoras de violências e geram diversas outras violações de direitos que, nos casos mais graves, levam inclusive à morte de mulheres, no chamado crime de feminicídio.

A violência contra as mulheres não é de hoje. Trata-se de uma violência estrutural e  inerente aos sistemas patriarcal e capitalista. Ela é usada como uma ferramenta de controle da vida, do corpo e da sexualidade das mulheres pelos homens.

O sistema impõe essa necessidade de controle, apropriação e exploração do corpo, vida e sexualidade das mulheres. O patriarcado funciona através de dois princípios: (1) a noção de que as mulheres são submissas aos homens, e, por isso, devem estar sempre disponíveis a esses, e (2) a divisão das mulheres em duas categorias: submissas (recatadas, puras) ou não submissas (como as que não estão em conformidade com as diretrizes da comunidade do instagram).  Como parte da cultura patriarcal, a masculinidade está associada à agressividade, e a violência (verbal, física, patrimonial, e mais recentemente pelo shadowban) é a punição para aquelas que não se enquadram no papel esperado.

 Segundo o Atlas da Violência, no Brasil, em 2017, mais de 221 mil mulheres registraram Boletins de Ocorrência por serem vítimas de agressões. Essas agressões levaram à consumação de cerca de 13 feminicidios por dia, sendo que a taxa de homicídios contra mulheres aumentou em 20,7% entre 2007 e 2017. Quase 40% dessas mortes de mulheres ocorrem dentro de casa, forte fator que a causa dessas mortes está relacionada à violência de gênero. 

Diante desse cenário assustador, em muito preocupa a censura na internet de material postado por mulheres e a sua associação à uma ideia de conteúdo impróprio, simplesmente pela exposição de seus corpos. A censura é uma forma de violência que gera muitas outras mais, especialmente considerando os efeitos desenfreados da internet na nossa sociedade atual. Mais do que nunca as mulheres devem se unir e lutar pelo respeito aos seus direitos e pela liberdade dos seus corpos.

Segundo o Boletim da Marcha Mundial das Mulheres no Brasil, “As mulheres sempre resistiram, e seguem resistindo, no âmbito individual e coletivo. Sempre que uma mulher atua dessa forma, ao desafiar ou denunciar a violência contra ela mesma ou mulheres de sua comunidade, está rompendo com o paradigma dominante. Necessitamos apoiar sua resistência ao condenar e denunciar homens que cometem violência contra as mulheres, e confrontar publicamente aos homens e à sociedade sobre o tema da violência contra as mulheres. Também devemos denunciar a cumplicidade de homens, Estados e instituições tais como as forças armadas e religiões. Necessitamos mobilizar a sociedade civil, pensar estrategicamente e promover ações radicais para a prevenção e denúncia da violência masculina contra as mulheres“.

Nesse contexto, várias mulheres expoentes do pole já se manifestaram diante do ocorrido.

shimmy

Michelle Shimmy comentou o assunto em sua rede social: “Usamos este sistema de nomenclatura para que possamos encontrar manobras de pole para aprender uns com os outros e treinar. Não há nada profano ou pornográfico sobre o que fazemos. O pole dance é habilidade, artístico, divertido, pode ser de forma fitness, pode ser na forma de performance e, sim, pode ser sexy, mas NÃO viola os termos de uso ou os padrões da comunidade do @Instagram. Proibir hashtags relacionadas ao pole dance faz com que seja realmente difícil para as pequenas empresas do setor funcionarem, e isso dificulta a interação da nossa comunidade. Nós vemos como uma alarmante tendência de policiamento de corpos femininos no Instagram, uma tendência que não se vê atingindo corpos masculinos da mesma forma“.

grazy

Grazi Meyer, na sua conta, escreveu: “Happy sunday elbowday (@maddiesparkledancer ❤️) pois o Instagram resolveu adicionar pole dance e tudo relacionado a ele à sua lista do que é inapropriado pro mundo, do que a ~comunidade não está pronta para ver. Antes de a gente chegar a esse ponto absurdo de todas as nossas hashtags de movimentos, de experiências, de troca, ficarem ocultas, as mulheres que se dispunham a lidar com seus corpos e sua sexualidade livremente já estavam sofrendo isso. Pole dance é coisa de stripper, foi criado e popularizado por stripper. E há tempos já tudo relacionado a elas sofre preconceito e higienização. Fazemos cosplay de stripper em eventos enquanto as strippers real oficial estão trancadas atrás de uma porta pra quase ninguém ver. Ouvimos e lemos o tempo todo que “esse pole dance aí é arte, é esporte, é (insira a sua justificativa pra não ser coisa de piranha aqui) enquanto aquele outro é ~só uma dancinha~”. Estamos, nós, as mainstream, vivendo o que as manas que abriram caminho pra gente vivem há tempos e acabamos nos acostumando pq é assim que é e pronto. A gente precisa se organizar enquanto classe, enquanto coletivo, sim. Mas a gente precisa repensar varias lógicas que permeiam a nossa comunidade. Especialmente aqui no Brasil, onde ainda se permite que sejamos assediadas e constrangidas por homens que são contratados para trabalhar pra nós. Onde denúncias de assédio nos espaços que deveriam ser seguros são silenciadas e diminuídas. Onde temos um mercado majoritariamente feminino e que se diz feminista, que ainda tem certas áreas monopolizadas por homens. Onde estamos criando padrões de eficiência, flexibilidade, força, perfeição de movimentos tão inatingíveis que uma penca de mulheres maravilhosas que trabalham com pole estão desgraçadissimas, machucadas física e psicologicamente, se achando ruins e fracas e com nada a acrescentar, sem talento, sem valor. A gente precisa conversar, se ouvir, se olhar, trocar e se propor de verdade a construir uma comunidade real. Onde o ganho pessoal não engula o coletivo a qualquer preço. Só se constrói coisas em comum com troca e afeto. Eu espero que a gente seja capaz disso. To aqui, disponivelzona”.

Por fim, a gente te convida a se juntar com essas mulheres maravilhosas, pois juntas somos mais fortes e capazes de fortalecer umas às outras, aprendendo e reaprendendo a resistir, a construir e reconstruir nossas vidas sem violência.

Citando a Tais Daher : “A gente vai incomodar e te horrorizar até que todas possamos circular livremente, como bem entendermos. Vamos te fazer sentir vergonha da gente com seu moralismo hipócrita até o dia que você tiver que esconder sua opinião desrespeitosa. Vamos responder a todo assédio e denuncia com uma auto estima da porra e um sorriso no rosto. Vamos aprender, uma a uma, a ver a beleza única dos nossos corpos, do jeitinho que eles vieram ao mundo, até que nenhuma faca entre em nossos corpos para satisfazer o seu senso estético opressor.

tais

 

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