Por Naomi Maratea

Ao longo da história, as mulheres lutam contra o machismo, as normas sociais e os preconceitos que tentam as impedir de ocupar espaços e exercer profissões. Além de conquistar os espaços predominantemente masculinos, as mulheres também se posicionam, se empoderam e ressignificam muitos outros lugares, tidos como femininos, mas que historicamente são vistos de forma pejorativa.

É o caso das dançarinas de pole dance (dança, que pode ser ou não sensual, realizada em uma barra vertical). Imagine como era vista uma dançarina de pole dance em 1925?   

É certo que ainda vivemos em um mundo conservador, onde a expressão “Pole Dance” é banida em redes sociais e onde países como a Coréia do Sul os bares de strip – o primeiro contato que alguns têm com algo que está próximo do pole dance – são proibidos. Mas também é certo que há cada vez mais mulheres com coragem se reunindo em estúdios de dança para celebrar o amor pelo próprio corpo, exercitarem-se e se divertirem.

Dentre muitas mulheres cis praticando, há diversas mulheres trans e travestis que também se jogam na arte do pole dance. E fazem bonito! Caso da Geovana Soares, de Aracaju – SE, dançarina do estúdio XIX, da Onika Bibiana Soares, de São Paulo – SP, que além de dançarina é professora de Pole Dance e secretária do estúdio Maravilhosas Corpo de Baile – e de eu mesma, Naomi Maratea, dançarina do estúdio Sou Do Pole na cidade de Santos – SP.

Vestimenta e pressão

Ao conversarmos sobre os sabores e dissabores de estar inserida em grupos de pole dance, todas dizem que o pole dance é de fato um ambiente muito atraente ao mesmo tempo em que é muito desafiador. O motivo é que se trata de um ambiente dominado por mulheres cis e que muitas vezes nem entendem a questão trans.

O primeiro desafio é a vestimenta. Para se praticar Pole Dance é necessário vestir pouca roupa, isso se dá porque a prática exige que a pele dos braços e das pernas esteja a mostra e entre em atrito com a barra. Os trajes, porém, não são feitos pensando em se encaixar no corpo de uma mulher trans e, só essa complicação pode desincentivar muitas meninas trans que sonham em dançar lindamente na barra.

Fora esse primeiro desafio, parece que a grande questão é a pressão. Mulheres trans se sentem constantemente pressionadas a provar sua feminilidade. Portando, estar rodeada de mulheres tão artisticamente femininas e com expectativas superiores referentes à própria identidade e feminilidade, pode causar medo e provocar inseguranças. Mas não desistimos e utilizamos da arte para trabalhar a autoestima. A cada performance a sensação é de vitória, de poder e de realização.

Onika Bibiana (foto acima) frisa o quanto tem orgulho de ser uma mulher trans que é professora de Pole Dance e ocupar uma posição de “guia”. Por meio do seu trabalho, consegue fazer com que outras pessoas trans a vejam, se espelhem e criem coragem.

Ainda, como secretária do estúdio Maravilhosas Corpo de Baile, é responsável por um projeto de inclusão que incentiva alunas transexuais e travestis por meio de bolsas.

Afinal, é importante que as minorias ocupem espaços. Seus corpos são políticos e quando estão ocupando um espaço que não ocupavam antes, fazem diferença.

Acolhida aos homens

João Camacho

Alguns homens – sobretudo os mais seguros de si – também perceberam como o Pole Dance pode ser gostoso e decidiram se juntar à prática. E, claro, diferentemente do que foi feito a mulheres durante anos de opressão, a maioria dos estúdios de Pole Dance mantém suas portas abertas para qualquer tipo de pessoa.

Em entrevista, João Camacho, um homem gay que é dançarino de Pole Dance, declarou que, por mais que houve certo receio no começo, se viu em um ambiente gostoso, confortável, acolhedor e divertido. Ele diz que encara o pole dance como um espaço para atividades físicas e desenvolver a autoestima.

Camacho também diz que, apesar da história do Pole Dance ser uma história feminina, e isso merecer respeito, a maioria dos homens que conhece não se vê em situação de preconceito por ser minoria nos estúdios. Ele afirma que não consegue dimensionar o quanto deve ser diferente para as mulheres estarem inseridas em espaços predominantes masculinos.

Ele lembra do período em que passou trabalhando em um quartel da PM/Bombeiros, ambiente descrito por ele como “heteronormativo”. Segundo João, era necessário estar “armado” o tempo todo, se policiando e agindo de forma defensiva para não sofrer nenhum tipo de agressão por ser você mesmo. “Imagino que uma mulher em um ambiente predominantemente masculino se sinta de forma semelhante”.

Naomi Maratea

Sendo assim, o Pole Dance é um lugar ideal para que mulheres e homens trans ocupem, homens gays e mulheres lésbicas, pessoas negras e de outras etnias, qualquer tipo de minoria. Não só porque é um espaço que vai melhorar a saúde e a autoestima dessa população, mas como também é um espaço que vai lançar essas pessoas pro mundo como pessoas lindas, majestosas e merecedoras de orgulho, amor e respeito.

Publicado originalmente no portal NLUCON.

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